Na semana passada, tive o privilégio de prestigiar, uma vez mais, o talento do fantástico diretor Peter Jackson, e equipe, em O Hobbit. Embora entusiasmado, fui ver o filme sem qualquer expectativa, exercício que tenho feito já há alguns anos, com o objetivo de tirar de cena o meu desejo pessoal por um resultado específico do trabalho de alguém, mas sim, de admirar, de entender o esforço de comunicação e a mensagem transmitida pela sua obra.
A maior lição que absorvi em O Hobbit é sobre o papel especial do desacreditado, do desconsiderado, daquele cara que não é bem vindo ao grupo, do último e “menos” talentoso a ser escolhido para integrar uma equipe. Bilbo Baggins, ou Bilbo Bolseiro, trouxe a questão do “vim pra te ajudar, não sei o motivo ainda, nem você, mas eu vim”. Essa história e personagem tão pitorescos vêm representar algo extremamente importante em nossas relações profissionais e pessoais – o sentimento de pertencimento gerado através do trabalho realizado e daquilo que o indivíduo passa a significar para si, para o outro e para o mundo, em função desse pertencimento.
Empresas que se prezem, ou que queiram ser prezadas, precisam, urgentemente, voltar seus olhos para o público interno, antes de qualquer coisa. Os processos de contratação, muitas vezes, são geridos por pessoas despreparadas para capturar os valores subjetivos dos candidatos, por estarem focadas na necessidade “urgente” que a empresa tem de dar resultados positivos, fazendo com que identifiquem apenas os valores objetivos do candidato e no quanto suas habilidades concretas se transformarão em cifras para a empresa. Os recrutadores e chefes de RH se esquecem que, ao contratarem alguém, estão integrando para dentro do organismo vivo da empresa um ser complexo, uma célula delicada, com grande capacidade de mutação. O que o transformará em um agente patogênico, promovendo a discórdia e a queda geral, ou em um glóbulo branco, promovendo a saúde e os interesses da empresa, é o líder ou gestor da empresa, através do norte cultural, estabelecido e transmitido por ele.
O líder que consegue identificar os valores subjetivos e intangíveis de um anão medroso e desconfiado, sem porte atlético ou habilidades de espadachim, aproveitando-o em funções e áreas onde outros não podem chegar, demonstra, além de visão, grande capacidade de gestão de pessoas, mas, sobretudo, que reconhece a pequenez do anão em si mesmo, dando exemplo de humildade e liderança a todos, aproveitando todos os recursos disponíveis que lhe são apresentados. Isto é uma das bases da liderança – ver, acreditar, preparar e deixar que as pessoas assumam seu papel e função na organização do todo. Como veem, o buraco da liderança e da gestão de pessoas é bem mais embaixo.